Por que Paulo focou nas grandes cidades para pregar o Evangelho? Luiz Sayão explica

O teólogo e hebraísta Luiz Sayão ministrou sobre como o cristianismo primitivo se tornou uma religião urbana durante palestra no 9&d...

Por que Paulo focou nas grandes cidades para pregar o Evangelho? Luiz Sayão explica
Por que Paulo focou nas grandes cidades para pregar o Evangelho? Luiz Sayão explica (Foto: Reprodução)

O teólogo e hebraísta Luiz Sayão ministrou sobre como o cristianismo primitivo se tornou uma religião urbana durante palestra no 9° Congresso Internacional de Arqueologia Bíblica, na quinta-feira (27), na cidade de São Paulo.

Mais de 500 pessoas estão participando do evento para fazer um mergulho no mundo bíblico com arqueólogos, biblistas e historiadores que escavaram Jerusalém e os sítios mais importantes da Terra Santa. O congresso continua nesta sexta-feira (28) e vai até sábado (29).

Sayão explicou aos participantes o contexto em que se desenrolou o ministério de Jesus, relatado na Bíblia.

A trajetória de Cristo teve como foco a região da Galileia, em torno do Mar da Galileia, em um cenário rural.

“A trajetória de Jesus Cristo está distanciada dos grandes centros urbanos e tem esse pano de fundo mais agrícola”, explicou o teólogo.

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Luiz Sayão. (Foto: Guiame/Marcos Paulo Corrêa).

Jesus costumava usar a figura do agricultor, do pastor e da terra para ensinar. “A maneira como Jesus ensina está muito voltado para os ambientes de pequenas aldeias, ambiente agrícola. A gente precisa prestar atenção na audiência que está sendo observada”, comentou Luiz.

Segundo ele, naquele contexto, Jesus era “visto como um rabino independente que está no fim do mundo do Império Romano, na sua quase extremidade oriental”.

Sayão ainda comentou que o ambiente que os primeiros seguidores de Jesus vivem era muito influenciado pela cultura e religião judaica.

“Os estudiosos entendem que o Império Romano deveria ter mais ou menos entre 65 e 70 milhões de pessoas. Agora, veja que coisa surpreendente e que a gente nem sempre têm noção: os judeus, na época, correspondiam a cerca de 10% da população do Império Romano. É uma quantia muito significativa. Os judeus estavam por toda parte do Império”, destacou.

Viagens missionárias de Paulo

(Foto: Reprodução)
Luiz Sayão. (Foto: Guiame/Marcos Paulo Corrêa).

Até que, com a expansão do Evangelho através das viagens missionárias de Paulo, o cristianismo vai se tornando mais urbano.

“Ainda que o movimento inicial de Jesus do ponto de vista antropológico seja do ambiente agrícola e de aldeias pequenas, agora você tem uma mudança urbana interessante”, declarou Sayão.

“Você tem a figura extraordinária, única e diferenciada de Paulo, que é muito judeu, muito romano e muito grego. É uma questão estratégica para o anúncio do Evangelho”, enfatizou.

“Ele é um cidadão urbano, um privilégio extraordinário para poucos nesse mundo de domínio de Roma. Ele faz uso da lei romana”.

Alcançando vários povos

O hebraísta lembrou que, em suas viagens missionárias, o apóstolo Paulo passou por cidades importantes, onde moravam pessoas de várias origens.

“As maiores cidades do Império Romano, tanto no Ocidente quanto no Oriente, eram cidades que juntavam pessoas de toda a parte. Por exemplo, Paulo em Éfeso: gente de toda a província romana da Ásia veio ouvir a mensagem do Evangelho. Essa concentração facilitava a ideia de você atingir todo tipo de etnia”, comentou.

“Era muito mais difícil para os primeiros missionários, como o apóstolo Paulo, ir atrás de vilarejos pequenos. Então, esses vilarejos ficaram em segundo plano”.

Foi nesse ambiente urbano, que a mensagem do Evangelho pregada por Paulo atraiu muitas pessoas.

“Nesse ambiente da cidade, você vai encontrar muitos vulneráveis, pessoas doentes, viúvas, órfãs. E a mensagem cristã, desde o começo, dava muita atenção a isso. E, portanto, isso chamava a atenção de modo particular”, ensinou Luiz Sayão.

E acrescentou: “O judaísmo tinha um impacto muito grande e muitos desses não-judeus tinham interesse, mas não estavam tão interessados em seguir o ritualismo e o legalismo dos fariseus”.

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Luiz Sayão. (Foto: Guiame/Marcos Paulo Corrêa).

De acordo com o teólogo, a questão linguística e política do Império Romano foi fundamental para a propagação da mensagem de Cristo. Nas cidades, todos falavam grego, o idioma universal daquele contexto.

“E uma coisa que nós nunca pensamos é que, exatamente nas áreas urbanas, as pessoas estavam mais abertas a novas ideias, novas reflexões. Na zona rural não. A Zona Rural é o ambiente da agricultura, que funciona conforme os paradigmas do paganismo antigo com suas ideias de fertilidade. Então, há muito mais resistência”, ponderou.

Importância das estradas

Além disso, as estradas que ligavam todo o Império Romano também foram importantes para a expansão do cristianismo, de acordo com Sayão.

“Temos a famosa Via Ignácia, no Norte da Grécia, usada por Paulo em suas viagens”, exemplificou o estudioso.

E ressaltou: “Veja que todo o foco do Novo Testamento, da expansão da igreja primitiva, se volta para cidades grandes”.

“O que começa na Galiléia, num ambiente do judaísmo do primeiro século, em crise em vários aspectos, se desdobra para ambientes onde vai ter contato com o mundo grego, com o mundo romano, com o mundo diversificado debaixo dessas grandes civilizações”.

O hebraísta afirmou que o ministério de Paulo e a forma como o Evangelho se expandiu na época ensinam uma lição de flexibilidade.

“Aquilo que há de melhor para ser dividido com o ser humano tem suficiente flexibilidade e capacidade de adaptação”, declarou.

“Imagine um Paulo criado naquele ambiente restrito, sendo capaz de, ao chegar em Éfeso, falar: ‘Pessoal, não deu certo, então, vamos anunciar o Evangelho na escola de Tirano’”, concluiu Luiz Sayão.