Reino Unido confirma descriminalização do aborto domiciliar realizado pela própria mulher

O Reino Unido deu um passo decisivo em uma das mudanças mais profundas de sua legislação sobre aborto desde 1967 ao aprovar, em junho de 20...

Reino Unido confirma descriminalização do aborto domiciliar realizado pela própria mulher
Reino Unido confirma descriminalização do aborto domiciliar realizado pela própria mulher (Foto: Reprodução)

O Reino Unido deu um passo decisivo em uma das mudanças mais profundas de sua legislação sobre aborto desde 1967 ao aprovar, em junho de 2023, uma medida que flexibiliza a responsabilização penal de mulheres que realizam o procedimento.

O processo legislativo avançou para sua etapa final com a revisão da proposta pela Câmara dos Lordes, a chamada Câmara Alta do Parlamento britânico.

No dia 18 de março, a Câmara dos Lordes confirmou, por 185 votos a 148, a decisão do Parlamento de descriminalizar o aborto realizado pela própria mulher.

Segundo críticos, a medida pode abrir margem para casos em qualquer fase da gestação, ao rejeitar emendas que buscavam restabelecer limites e salvaguardas médicas.

Limite legal

A votação manteve intacta a proposta aprovada anteriormente pela Câmara dos Comuns, ao retirar da esfera criminal os abortos praticados fora do sistema de saúde, inclusive após o limite legal de 24 semanas.

Os grupos pró-vida esperavam que duas emendas apresentadas por políticos conservadores e representantes da Igreja da Inglaterra (que tem representação na Câmara dos Lordes) fossem aceitas. Mas isso não aconteceu.

Entre as propostas rejeitadas, uma buscava excluir a cláusula que retira a responsabilização criminal da mulher pela interrupção da própria gravidez. Outra pretendia restabelecer a obrigatoriedade de consulta médica presencial antes do envio, por correio, de medicamentos abortivos para uso domiciliar.

Com a decisão, o limite de 24 semanas permanece aplicável aos procedimentos realizados dentro do sistema de saúde. No entanto, a mudança impede a responsabilização criminal da mulher em casos de aborto realizado fora desse contexto, inclusive após esse período.

A prática do chamado “aborto doméstico”, ou “faça você mesmo”, se tornou mais comum desde a pandemia de Covid-19, quando o governo britânico passou a permitir o envio de pílulas abortivas pelo correio – medida que se tornou permanente em 2022.

Reação de grupos pró‑vida

Segundo o Evangelical Focus, organizações cristãs e pró-vida classificam a mudança como “a alteração mais significativa na legislação sobre aborto em quase 60 anos”.

A Aliança Evangélica do Reino Unido reagiu à votação com “profunda preocupação” pelas “más notícias” vindas de Westminster.

Caso a lei entre em vigor, acrescentou a organização evangélica, é necessário “garantir que as mulheres que enfrentam gravidezes em crise recebam apoio compassivo e que afirme a vida, e que tanto a mãe quanto o bebê sejam cuidados com dignidade antes e depois do parto”.

A Sociedade para a Proteção de Crianças Não Nascidas criticou a mudança na lei do aborto, afirmando que ela foi aprovada sem debate prévio, sem ouvir a população e sem uma análise clara de seus impactos.

Eles acreditam que a nova lei "levará à realização de abortos tardios em bebês que, se nascidos no hospital, teriam boas chances de sobreviver".

Grupos como o Right to Life UK alertam que a descriminalização pode resultar no aumento de abortos tardios realizados fora do ambiente clínico, elevando os riscos à saúde das mulheres e à vida dos nascituros.

“Se este projeto se tornar lei, é provável que leve a um aumento significativo no número de mulheres que realizam abortos tardios em casa, colocando em risco a vida de muitas outras mulheres”, disse a Right to Life UK, que organiza marchas pró-vida todos os anos.

União Europeia

Movimentos para ampliar ainda mais a liberalização das leis sobre o aborto também avançam em outros países da Europa.

Para observadores cristãos, o caso britânico passou a simbolizar um debate mais amplo no continente sobre o valor da vida, os limites da autonomia individual e o papel do Estado na proteção dos mais vulneráveis.

Embora a decisão não obrigue médicos a realizar abortos fora dos limites legais vigentes, críticos afirmam que ela cria um vácuo moral e jurídico, no qual a vida do nascituro deixa de receber proteção efetiva em seus estágios finais.

De acordo com o Evangelical Focus, igrejas e organizações cristãs continuam apelando por políticas que ofereçam apoio integral às mulheres, alternativas ao aborto e uma cultura que valorize a vida desde a concepção.

Com a lei praticamente consolidada, o debate tende a se deslocar para os campos social, ético e pastoral – tanto no Reino Unido quanto em outros países europeus que acompanham atentamente os desdobramentos dessa decisão histórica.